segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Esta noite ficará na história

Você leitor com certeza já ouviu famosas histórias de auto-ajuda, coisas do tipo: - "pense positivo, você consegue" - ou mesmo - "Peça para o Cosmo que ele realizará", muito bonito, mas pensar não materializa nada, não paga conta. O óbvio é que com persistência, foco e calma você deve lapidar no mundo aquilo que a mente produz. O pessimismo (outro atributo do plano mental), esse sim muda tudo. -"Não acredito que consigo, logo não faço", é como uma bosta de pomba que cai por entre os fios elétricos em uma velocidade incrível na sua roupa nova que você acabou de vestir após o banho caprichado para encontrar a namorada: você xinga o mundo todo, e tem a certeza de isso foi obra divina, para atrasá-lo, para detoná-lo, mas não.
- "Cara, a câmera tá quebrada, e pra consertar fica o preço de uma nova", dinheiro esse que não tinha, mas já estava combinado que eu iria fazer o curta metragem e participar do festival. Foi como a "bomba de bosta", tirou o tesão logo de cara. Outro camarada, o Mauricio falou que não havia problema que a gente ia escrever o roteiro primeiro e que daríamos um jeito. Seguimos em frente.
Comecei a brincar de escrever já desacreditando que ia funcionar e que eu estava perdendo um tempo precioso das férias universitárias, pensamentos deprimentes unidos às cotidianas brigas familiares, estresse, falta de grana, sem nada, sem puto.- "tem uns amigos concorrentes que estão orçando uns R$1000 para fazer o figurino alugar equipo etc."- dizia o Mauricio pelo telefone arrebentando minha orelha esquerda e o diabo do pessimismo cutucando na direita: -"eu não tenho nem R$50, nem R$ 50...
Roteiro pronto precisando começar a rodar e nada de câmera, nada de bufunfa nada de nada e lembrei de um amigo, que tem uma esposa, que tem uma handycam e que talvez se eu pedisse, ela emprestaria, mas não, a orelha direita já estava inchada: - "isso é um absurdo, não se pede as coisas pros outros desta forma, uma handycam! Você emprestaria a sua? E se quebrar? Não tem din din pra consertar!" - "Alô, Felipão? Quanto tempo! E a Lú tá bem? Sabe aquela vez que..." - consegui. Vivas! Só faltava aprender a mexer no brinquedo.
Eu sempre me considerei um pouco complicado na hora de transpor idéias, mas o roteiro que escrevi com meu amigo foi algo além da imaginação. Hollywood ficaria encantada! Todos os melhores atores dariam a vida para representar o sofrido Pedro Diamond, a mais alucinógina experiência lisérgica não seria nada comparada ao climax tempestuoso do curta! Fiquei levemente abobalhado com esses sentimentos. O telefone tocou com o Mauricio do outro lado e sai do sonho lembrado que eu estava em São Paulo, aqui não era a gringa, eu tinha só uma minúscula câmera para tentar passar alguma coisa mais ou menos do que estava escrito no roteiro e que também não conhecia ator nenhum e caso conhecesse duvido que algum toparia atuar na faixa. Foi o fim, mas meu irmão estava de bom humor e como o roteiro evidenciava a perspectiva de aparecer pelado ele adorou e conseguimos o ator, iámos rodar duas cenas na Pedra Grande sábado de manhã, ai, ai.
Gravamos em meio à natureza e um "senhor frio" às 7 da manhã. Um amigo do irmão conseguiu uma outra câmera, daquelas de casamento, a luz no fim do túnel brilhava um pouco mais. De volta a Sampa gravamos as cenas urbanas e quando tínhamos todo o material lembramos que nenhum de nós nunca editara na vida! Difícil, viu? Noites e mais noites, o computador com vírus, mas tava funcionando. O Felipão que me emprestou a máquina se ofereceu para gravar a trilha sonora em seu estúdio o que deu um toque especial à aberração.
Aos trancos e barrancos o curta metragem "Esta noite ficará na história" chegou à tela do salão do térreo da Universidade São Judas devendo e muito em qualidade de imagem e som. Tudo parecia acabado. Nas premiações foi com surpresa quando ouvi o nome do curta sendo chamado para terceira menção honrosa da categórica "vídeo-ficção". Fiquei contente, pois ignoramos todas a dificuldades e mesmo que imperfeito conseguimos o intento. A orelha direita ardia, mas logo passou e me fez entender o quanto é importante ter objetivo e não se deixar levar pelo desespero, fomos até as últimas consequências e chegamos até lá. Não ganhamos troféu, apenas o dvd do filme "Cidade de Deus", mas ele valia ouro.

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